Tradição gaúcha e identidade fronteiriça em Quaraí

Semana Farroupilha, CTGs, cavalgadas, música, dança e culinária revelam uma cultura construída nos campos do Pampa e renovada diariamente pelo contato com a cidade uruguaia de Artigas

Quaraí (RS) – Quando setembro se aproxima, a presença da tradição gaúcha torna-se ainda mais visível em Quaraí. As pilchas saem dos armários, os galpões recebem famílias, a música regional ganha espaço e cavalarianos percorrem estradas e ruas carregando símbolos ligados à história do Rio Grande do Sul. No município fronteiriço, porém, essa identidade apresenta características próprias: ela foi construída em contato permanente com o Uruguai.

Separada de Artigas pelo Rio Quaraí e ligada à cidade uruguaia pela Ponte Internacional da Concórdia, Quaraí integra uma região na qual costumes, palavras, músicas, receitas e relações familiares atravessam a fronteira diariamente. O município possui 23,5 mil habitantes, segundo o Censo de 2022, e ocupa um extenso território marcado pela pecuária e pelos campos do Pampa.

Nesse ambiente, ser gaúcho não se resume à participação em eventos comemorativos. A identidade aparece no trabalho rural, na relação com os cavalos, no churrasco preparado em família, na roda de mate, na música tocada em festas e na convivência entre pessoas que falam português, espanhol ou uma combinação espontânea dos dois idiomas.

Uma tradição moldada pelo território

A formação cultural de Quaraí está ligada à história das disputas territoriais entre portugueses, espanhóis e forças políticas da região do Prata. O município registra em sua trajetória a passagem da Revolução Farroupilha e destaca que o último combate do conflito começou em território quaraiense e se estendeu até a região de Quaró, no atual departamento uruguaio de Artigas, em dezembro de 1844.

Essa história ajuda a explicar por que a identidade local não cabe inteiramente dentro de uma fronteira nacional. O gaúcho surgiu e se desenvolveu em uma ampla região pastoril que inclui o Rio Grande do Sul, o Uruguai e partes da Argentina. O próprio governo gaúcho reconhece que a formação dessa cultura ocorreu a partir de encontros entre populações indígenas, europeias, africanas e habitantes dos territórios platinos.

Em Quaraí, os campos, as estâncias, a criação de bovinos e ovinos e o deslocamento entre a cidade e o interior preservaram práticas relacionadas à vida campeira. Ao mesmo tempo, a proximidade com Artigas permitiu que manifestações brasileiras e uruguaias se influenciassem mutuamente.

O resultado é uma identidade fronteiriça que continua brasileira e gaúcha, mas incorpora expressões, ritmos, sabores e maneiras de convivência compartilhadas com o país vizinho.

Semana Farroupilha mobiliza a comunidade

A Semana Farroupilha é o momento de maior visibilidade pública dessa cultura. Em todo o Rio Grande do Sul, a celebração reúne CTGs, escolas, instituições públicas, associações e comunidades em torno de atividades como cavalgadas, apresentações musicais, danças, oficinas, tertúlias, rodas de chimarrão e gastronomia campeira.

Em Quaraí, a programação costuma ocupar espaços tradicionalistas e comunitários. Um exemplo ocorreu em 2015, quando o encerramento dos festejos reuniu grande público no Piquete Orelhano CTG para uma apresentação do cantor nativista Joca Martins, promovida por meio de parceria entre a prefeitura e o Sesc. O repertório incluiu clássicos da música regional e uma composição do poeta quaraiense Luiz Menezes.

Mais do que recordar a Revolução Farroupilha, essas atividades criam oportunidades para que moradores de diferentes gerações se encontrem. Os mais velhos compartilham memórias de antigas cavalgadas, bailes e festas; crianças e adolescentes participam de apresentações, aprendem danças e conhecem histórias que nem sempre aparecem com profundidade nos materiais escolares.

A presença das escolas é particularmente importante. Na programação dos 149 anos de Quaraí, realizada em 2024, o CTG Sentinela do Jarau recebeu uma noite de apresentações artísticas organizada pela rede municipal de educação. A mesma programação incluiu a 12ª Cavalgada do Butiazal, demonstrando como tradição, ensino e atividades campeiras continuam presentes na agenda do município.

CTGs funcionam como espaços de convivência

Os centros de tradições gaúchas não são utilizados apenas durante setembro. Em muitos municípios, essas entidades funcionam como pontos de encontro para ensaios, refeições, bailes, cursos, eventos beneficentes, reuniões e celebrações familiares.

Em Quaraí, espaços como o CTG Sentinela do Jarau e o Piquete Orelhano aparecem em programações culturais e comunitárias promovidas ao longo dos anos. Além dos eventos ligados diretamente ao tradicionalismo, os galpões podem receber atividades sociais, educacionais e apresentações públicas.

Essa utilização ajuda a manter as entidades integradas ao cotidiano. O galpão deixa de ser apenas um cenário temático e torna-se lugar de convivência entre famílias, músicos, dançarinos, trabalhadores rurais, estudantes e moradores urbanos.

O Movimento Tradicionalista Gaúcho define essas organizações como espaços de preservação e divulgação de expressões como música, dança, gastronomia, artesanato, cavalgadas, esportes campeiros e história regional. A continuidade dessas práticas depende da participação regular da comunidade, especialmente das novas gerações.

Jovens aprendem, mas também transformam

A transmissão das tradições não ocorre de maneira automática. Crianças e adolescentes precisam encontrar espaços acolhedores, instrutores preparados e oportunidades reais de participação. Ensaios de invernadas, oficinas de música, concursos culturais e atividades realizadas nas escolas ajudam nesse processo.

No tradicionalismo organizado, grupos são divididos por faixas etárias, permitindo que crianças, jovens, adultos e veteranos participem das danças e apresentações. Cursos promovidos pelo MTG abordam história, música, coreografia, inclusão e metodologias específicas para grupos mirins, mostrando que ensinar tradição exige planejamento e formação.

A participação juvenil também renova as formas de divulgação. Fotografias, vídeos e transmissões nas redes sociais fazem com que apresentações antes restritas aos galpões alcancem públicos maiores. Jovens músicos misturam instrumentos e recursos contemporâneos sem necessariamente abandonar os ritmos regionais.

Esse movimento pode gerar divergências entre gerações. Enquanto alguns defendem a reprodução rigorosa das formas consideradas tradicionais, outros entendem que a cultura precisa aceitar novas linguagens para permanecer viva. O desafio é permitir renovação sem reduzir a tradição a uma fantasia desconectada de sua história.

Os idosos guardam a memória das transformações

Moradores mais velhos representam uma fonte essencial para compreender como o tradicionalismo mudou em Quaraí. Seus relatos podem recuperar antigos bailes, carreiras de cavalo, festas rurais, viagens entre estâncias, encontros musicais e formas de atravessar a fronteira anteriores à construção da Ponte da Concórdia.

Também podem explicar mudanças na indumentária, na organização dos CTGs e no repertório dos conjuntos. Em décadas passadas, muitas manifestações eram aprendidas diretamente nas famílias e comunidades rurais. Hoje, parte desse conhecimento é sistematizada por cursos, regulamentos, pesquisas e competições.

Registrar essas lembranças em áudio e vídeo permitiria formar um acervo de história oral. Escolas e entidades culturais poderiam entrevistar antigos tropeiros, músicos, cozinheiras, professores de dança, pecuaristas e participantes dos primeiros grupos tradicionalistas da cidade.

O contato entre jovens e idosos não deve ocorrer apenas em cerimônias. Oficinas permanentes, rodas de conversa e projetos escolares poderiam transformar a experiência dos moradores em material educativo e preservar detalhes que os documentos oficiais não registram.

A música atravessa o Rio Quaraí

A identidade musical da fronteira é formada por circulação. Milonga, vaneira, chamamé, polca, valsa, música nativista e payada encontram públicos dos dois lados do rio. Violão, acordeão e voz acompanham letras sobre o campo, os animais, os amores, as viagens e a vida do trabalhador rural.

No Uruguai, festividades tradicionais também reúnem canto, payadas, jineteadas, fogueiras, habilidades campeiras e música de acordeão. Essa proximidade de repertórios ajuda a explicar por que músicos de Quaraí e Artigas conseguem dialogar mesmo quando cantam em idiomas diferentes.

Um personagem que simboliza esse encontro é o pianista e compositor quaraiense Natho Henn. Documentos preservados pela Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul mostram que ele tocou ainda jovem em Artigas, estudou em Montevidéu e retornou a Quaraí, onde lecionou e criou obras inspiradas na vida e nos ritmos do Sul. Posteriormente, tornou-se fundador da Discoteca Pública do Estado, instituição que hoje leva seu nome.

Sua trajetória mostra que a cultura fronteiriça não é uma produção isolada ou exclusivamente rural. Ela também pode chegar às salas de concerto, aos arquivos, às escolas de música e às instituições culturais, mantendo a paisagem do Pampa como fonte de criação.

Dança preserva histórias por meio do corpo

As danças tradicionais transformam narrativas históricas e costumes sociais em movimento. Passos, sapateios, giros, formação dos pares e uso da indumentária ajudam a representar diferentes períodos da vida no Rio Grande do Sul.

Nos CTGs, as invernadas artísticas são fundamentais para essa transmissão. Ensaiar exige disciplina, trabalho coletivo, preparação física e pesquisa. Além da execução técnica, os grupos precisam compreender o contexto das músicas, dos gestos e das roupas utilizadas.

Festivais promovidos pelo movimento tradicionalista incluem categorias para crianças, jovens, adultos e veteranos, reforçando a ideia de continuidade entre gerações. Também valorizam manifestações individuais como declamação, canto, chula, gaita e violão.

Na fronteira, a dança também recebe influências platinas. O contato com bailes uruguaios, o uso do acordeão e a circulação de ritmos tornam as festas espaços de intercâmbio, mesmo quando as apresentações seguem regulamentos diferentes.

Português, espanhol e portunhol convivem

A influência uruguaia aparece de maneira evidente na fala. Moradores de Quaraí e Artigas convivem com português, espanhol e variedades linguísticas desenvolvidas na própria fronteira. Pesquisas sobre a região Brasil–Uruguai descrevem esse território como multilíngue e multidialetal, no qual o chamado portunhol faz parte das interações cotidianas.

Essa mistura pode aparecer nas conversas durante um baile, nos anúncios do comércio, nas letras de artistas locais e até nas expressões utilizadas para descrever objetos, alimentos ou atividades rurais.

Em vez de representar falta de domínio de um idioma, o portunhol fronteiriço pode ser entendido como recurso de comunicação e sinal de pertencimento. Quem vive na região aprende a adaptar a fala de acordo com a pessoa, o ambiente e o lado da fronteira.

A língua, assim como a música, revela que Quaraí e Artigas possuem administrações e nacionalidades distintas, mas compartilham parte de sua experiência cultural.

Sabores compartilhados no Pampa

Na culinária, o churrasco ocupa posição central, acompanhado por pratos ligados à carne bovina e ovina, ao arroz, à produção rural e às refeições coletivas. O preparo do fogo costuma ser também um momento de encontro, no qual familiares e amigos conversam enquanto a comida é assada.

Do lado uruguaio, o asado possui função semelhante. O Ministério do Turismo do Uruguai descreve a refeição como prática de convivência, amizade e reunião social. Mate, tortas fritas e chivito também aparecem entre os elementos reconhecidos oficialmente como representativos dos costumes do país.

O mate é talvez o símbolo mais evidente dessa cultura compartilhada. A bebida está presente no Uruguai, no Sul do Brasil, na Argentina e no Paraguai e acompanha tanto o trabalho quanto os momentos de descanso. Em Quaraí, a cuia e a térmica circulam em casas, praças, repartições, estâncias e encontros tradicionalistas.

Durante a Semana Farroupilha, a gastronomia ganha ainda mais destaque. Churrasco, carreteiro, doces campeiros, pães e outras preparações tornam-se parte da programação. Essas refeições ajudam a sustentar eventos e podem gerar renda para entidades, cozinheiras, pequenos produtores e comerciantes.

A fronteira amplia a identidade

A influência uruguaia não diminui a tradição gaúcha de Quaraí. Ao contrário, evidencia que a cultura do Pampa foi formada historicamente antes que os limites nacionais adquirissem a configuração atual.

Famílias com parentes dos dois lados, músicos que se apresentam no Brasil e no Uruguai, consumidores que atravessam a ponte e estudantes que convivem com os dois idiomas ajudam a manter essa relação.

A integração também permite perceber semelhanças: o gosto pelo mate, pela carne assada, pelo cavalo, pelo futebol, pelas festas rurais e pela música de acordeão. Ao mesmo tempo, cada comunidade mantém suas referências históricas, seus símbolos nacionais e suas formas particulares de celebrar.

Essa combinação forma uma identidade que não precisa escolher entre ser gaúcha e fronteiriça. Em Quaraí, as duas dimensões coexistem.

Continuidade exige espaço e investimento

Apesar da força simbólica da tradição, sua continuidade enfrenta desafios. Manter sedes, adquirir roupas, instrumentos e equipamentos, pagar instrutores e custear viagens exige recursos que muitas entidades não possuem.

Outro obstáculo é o afastamento de jovens que estudam ou trabalham em outras cidades. Quando retornam apenas em determinados períodos, torna-se mais difícil manter grupos permanentes de dança, música e atividades campeiras.

Políticas culturais podem contribuir com editais, formação, transporte, manutenção de espaços e documentação de acervos. Parcerias entre escolas, CTGs, universidades, produtores rurais e instituições uruguaias poderiam ampliar oficinas e intercâmbios.

A tradição também precisa ser acessível. Pessoas com deficiência, famílias de baixa renda e moradores sem ligação anterior com o movimento devem encontrar condições para participar. Quanto mais diverso for o público, maior será a capacidade de manter a cultura relevante.

Cultura pode fortalecer o turismo e a economia

Quaraí possui condições para integrar o tradicionalismo ao turismo histórico, rural e ambiental. A Semana Farroupilha, as cavalgadas, os roteiros pelas estâncias, a gastronomia, a música, o Cerro do Jarau e a proximidade com Artigas podem formar uma programação complementar.

Um roteiro binacional poderia reunir apresentações culturais, refeições típicas, feiras de artesanato, visitas ao patrimônio histórico e experiências relacionadas à vida campeira. Para funcionar, porém, o projeto precisaria envolver diretamente os moradores e distribuir os benefícios entre guias, artistas, produtores, cozinheiras, comerciantes e pequenas hospedagens.

A cultura não deve ser apresentada apenas como espetáculo para visitantes. O turismo será mais autêntico quando valorizar práticas que continuam fazendo sentido para a própria comunidade.

Uma tradição que permanece em movimento

A identidade gaúcha de Quaraí não está guardada apenas em documentos, museus ou fotografias. Ela permanece nas cavalgadas, nos ensaios, nos galpões, nos instrumentos musicais, nas receitas familiares e nas conversas em torno do mate.

Os idosos carregam lembranças de uma cidade e de um campo que se transformaram. Os jovens recebem esse patrimônio e decidem como apresentá-lo às próximas gerações. Entre eles, existe uma tradição que não permanece imóvel: aprende, adapta-se e atravessa a ponte.

Na fronteira entre Brasil e Uruguai, Quaraí mostra que identidade não significa isolamento. Sua cultura foi construída justamente pelo encontro — entre campo e cidade, passado e presente, português e espanhol, brasileiros e uruguaios.

É nessa convivência que a tradição gaúcha encontra forças para continuar viva.

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