Cerro do Jarau: ciência, natureza e lenda no coração do Pampa

Formação associada ao impacto de um corpo celeste transforma a paisagem de Quaraí em patrimônio geológico, ambiental e cultural, com potencial para impulsionar o turismo científico na Fronteira Oeste

Quaraí (RS) – No horizonte predominantemente plano do Pampa gaúcho, um conjunto de morros rompe a paisagem e desperta a curiosidade de moradores, viajantes e pesquisadores. Localizado no município de Quaraí, próximo à fronteira com o Uruguai, o Cerro do Jarau reúne em um mesmo território uma rara estrutura geológica, campos nativos, sítios históricos e uma das lendas mais conhecidas da literatura regional.

Durante muito tempo, a origem daquela formação circular foi motivo de debate. Estudos geológicos mais recentes identificaram nas rochas sinais produzidos por pressões extremamente elevadas, confirmando que o relevo está relacionado ao impacto de um corpo celeste. O Serviço Geológico do Brasil classifica o Jarau como um astroblema — nome dado a uma antiga cratera profundamente modificada pela erosão — com aproximadamente 13 quilômetros de diâmetro. Levantamento publicado em 2024 estimou cerca de 14 quilômetros, diferença relacionada aos critérios utilizados para delimitar a estrutura.

O resultado é um lugar onde a história do planeta, a biodiversidade do Pampa e o imaginário popular se encontram. Para Quaraí, o Cerro do Jarau representa uma oportunidade de transformar conhecimento e preservação em desenvolvimento turístico, educação ambiental e valorização da identidade fronteiriça.

Uma marca deixada por um acontecimento extraordinário

O Cerro do Jarau foi formado sobre camadas de arenito e rochas basálticas de idade jurássica e cretácea. Ao longo de milhões de anos, a chuva, o vento, os cursos d’água e outros processos naturais desgastaram a estrutura original, deixando visível um conjunto de elevações que contrasta com os campos ao redor.

A confirmação científica não ocorreu apenas pela aparência circular observada em imagens aéreas. Pesquisadores encontraram em grãos de quartzo deformações microscópicas provocadas por ondas de choque. Essas marcas, conhecidas como feições planares de deformação, são consideradas evidências importantes de impactos em alta velocidade e ajudaram a confirmar a origem extraterrestre da estrutura.

O impacto alterou, fraturou e deslocou as rochas da região. Depois, a erosão removeu grande parte da antiga cratera e expôs estruturas internas. Por isso, o visitante não encontra um buraco perfeitamente preservado, como uma cratera recente, mas um relevo complexo formado por cristas, morros, depressões e áreas rochosas.

O termo astroblema significa, de maneira aproximada, “cicatriz de estrela”. A expressão ajuda a compreender o valor do Jarau: o lugar funciona como uma espécie de arquivo natural de um acontecimento ocorrido no passado geológico da Terra.

Um laboratório natural a céu aberto

A importância científica do Cerro do Jarau vai além da confirmação do impacto. O local permite estudar a formação e a erosão de crateras, as alterações causadas nas rochas, a evolução da paisagem e a relação entre relevo, vegetação e drenagem.

Um estudo recente utilizou veículo aéreo não tripulado para analisar a paisagem do Jarau em alta resolução. A pesquisa destacou a forma circular da estrutura e sua diferenciação em relação ao relevo predominantemente plano do entorno, demonstrando como novas tecnologias podem ampliar o conhecimento sobre o patrimônio geológico.

O Cerro também possui potencial para atividades de campo realizadas por escolas, universidades e grupos de pesquisa. Geologia, geografia, arqueologia, história, biologia e literatura podem ser trabalhadas de maneira integrada, permitindo que estudantes relacionem conhecimentos científicos com o território.

Painéis interpretativos, pontos de observação, mapas, visitas guiadas e pequenas exposições poderiam explicar aos visitantes como os pesquisadores identificam uma estrutura de impacto. A experiência teria valor educativo sem exigir grandes intervenções na paisagem.

A biodiversidade protegida pelo relevo

O valor do Jarau não está somente nas rochas. A região abriga ambientes representativos do Pampa, como campos nativos, campos rupestres, matas ciliares, capões de mata, cursos d’água e formações associadas ao inhanduvá. Essa variedade de ambientes foi uma das justificativas apresentadas em uma proposta técnica estadual para a criação de uma unidade de conservação na região.

Levantamentos de campo realizados em 2013 registraram aves como ema, coruja-buraqueira, cardeal, joão-de-barro, quero-quero-do-banhado, carcarás e outras espécies características de ambientes campestres e áreas úmidas. Entre os mamíferos observados estavam o tatu-peba, o veado-catingueiro e a capivara, além de vestígios de outros animais.

A riqueza ambiental é favorecida pela combinação entre campos, áreas rochosas, arroios, sangas e pequenos fragmentos de vegetação arbórea. O relevo cria diferentes condições de umidade, exposição solar e proteção contra o vento, permitindo a formação de ambientes variados em uma área relativamente próxima.

Essa biodiversidade reforça a necessidade de controlar atividades que possam causar erosão, incêndios, retirada de vegetação, descarte de resíduos e perturbação da fauna.

Trilhas revelam diferentes paisagens

As caminhadas pelo Cerro permitem observar o Pampa de uma perspectiva pouco comum. Durante os percursos, campos abertos dão lugar a subidas rochosas, mirantes naturais, cursos d’água e formações ligadas à antiga estrutura de impacto.

Em 2024, a Prefeitura de Quaraí divulgou uma atividade de caminhada no Cerro dentro da iniciativa Caminhos do Pampa. A ação reforçou o interesse pelo local como espaço de aventura, contemplação da natureza e contato com a história regional.

A expansão desse tipo de atividade, porém, precisa ser acompanhada por planejamento. Trilhas sem definição clara podem abrir caminhos sobre áreas frágeis, acelerar a erosão e favorecer a circulação descontrolada em propriedades rurais.

Um sistema organizado poderia estabelecer trajetos autorizados, níveis de dificuldade, quantidade adequada de visitantes e regras de segurança. Guias locais capacitados poderiam apresentar informações sobre geologia, biodiversidade, história e cultura, transformando a caminhada em uma experiência educativa.

Também seria importante que os visitantes verificassem previamente as condições de acesso e a necessidade de autorização, pois parte da região está inserida em propriedades particulares.

A furna e os mistérios da Salamanca

A ciência explica a origem geológica do Cerro, mas o imaginário popular oferece outra dimensão ao lugar. A região é associada à Salamanca do Jarau, narrativa que mistura influências indígenas, ibéricas, missioneiras e fronteiriças.

A versão mais conhecida foi registrada pelo escritor pelotense João Simões Lopes Neto e publicada em Lendas do Sul, no início do século XX. A história acompanha o gaúcho Blau Nunes, que chega ao Jarau e enfrenta provas sobrenaturais relacionadas ao Santão da Salamanca e à Teiniaguá, criatura encantada representada como uma pequena lagartixa com uma pedra luminosa na cabeça.

Na narrativa, a Teiniaguá é uma princesa moura encantada, ligada a tesouros ocultos e aos mistérios existentes sob a terra. A história discute desejo, riqueza, coragem, liberdade e as escolhas feitas pelo ser humano diante da possibilidade de poder.

A tradição popular passou a associar uma furna existente no Cerro à entrada da Salamanca. A proposta técnica de conservação elaborada pelo Estado registrou a cavidade e também identificou pichações em seu interior, exemplo concreto de como a visitação sem controle pode danificar um patrimônio simultaneamente natural e cultural.

A lenda não precisa competir com a explicação científica. As duas narrativas podem conviver: a geologia conta a história da formação da Terra, enquanto a literatura revela como as pessoas interpretaram o lugar e construíram sentidos para sua paisagem.

Um lugar estratégico na história da fronteira

O Cerro do Jarau também está relacionado à formação histórica da Fronteira Oeste. Sua posição elevada permitia observar grandes extensões do território, conferindo importância estratégica à região.

O portal oficial de turismo do Rio Grande do Sul relaciona o local ao período da Revolução Farroupilha e à antiga estância de Bento Manuel Ribeiro. Segundo o registro, tropas também utilizaram a região como área de refúgio, o que amplia o valor histórico do conjunto.

Essa sobreposição de patrimônio geológico, natural, literário e histórico torna o Jarau diferente de muitos outros atrativos. Uma visita pode abordar desde a antiga evolução das rochas até os conflitos de fronteira e a formação da identidade gaúcha.

Conservação ainda é o principal desafio

Em 2013, uma equipe técnica estadual elaborou uma proposta para a criação do Monumento Natural Cerro do Jarau. O documento destacou três razões principais para proteger a região: a presença do astroblema, os ecossistemas representativos do Pampa e o significado histórico e cultural do local.

O levantamento também registrou atividades humanas na área, como pecuária bovina e ovina, lavouras, açudes, plantios de árvores exóticas e instalação de antenas. O desafio está em conciliar as atividades produtivas existentes com a preservação das áreas mais sensíveis e dos elementos de maior valor científico.

A criação de uma estratégia de conservação não precisa excluir as comunidades ou proprietários rurais. Pelo contrário, pode envolver acordos, educação ambiental, pesquisa, manejo responsável e participação de moradores na prestação de serviços turísticos.

A proteção também depende de atitudes básicas: não retirar pedras, não deixar lixo, evitar fogo, não alimentar animais, respeitar cercas e propriedades e não produzir inscrições em rochas ou cavernas.

Turismo científico como oportunidade para Quaraí

O geoturismo busca aproximar visitantes do patrimônio geológico, promovendo conhecimento e conservação. No Cerro do Jarau, essa atividade poderia ser integrada ao turismo rural, às caminhadas, à observação de aves, à fotografia, à história regional e à literatura.

A estrutura já aparece nos materiais oficiais de turismo do Rio Grande do Sul como um dos atrativos de Quaraí, indicando que existe reconhecimento de seu potencial.

Um projeto turístico bem estruturado poderia estimular a formação de guias, a produção de artesanato, a gastronomia regional, a hospedagem rural e a realização de eventos científicos e culturais. Escolas e universidades poderiam manter programas permanentes de visitas e pesquisas.

Esse desenvolvimento, entretanto, deve respeitar a capacidade ambiental do lugar. O objetivo não pode ser simplesmente aumentar o número de visitantes, mas oferecer experiências de qualidade, gerar renda local e financiar a proteção do patrimônio.

Entre o céu, a terra e a memória

Poucos lugares traduzem tão claramente a diversidade do Pampa quanto o Cerro do Jarau. A paisagem guarda a força de um antigo impacto, a delicadeza dos campos nativos, a presença da fauna e as histórias transmitidas por gerações.

A ciência transformou o Cerro em referência para o estudo de estruturas de impacto. A literatura fez dele morada da Teiniaguá e cenário das provas de Blau Nunes. A história o ligou à formação da fronteira, enquanto a comunidade de Quaraí continua reconhecendo o lugar como parte de sua identidade.

Preservar o Jarau significa proteger todas essas dimensões ao mesmo tempo. Com planejamento, pesquisa e participação comunitária, o Cerro pode se consolidar como um dos principais destinos de turismo científico e ambiental da Fronteira Oeste — um lugar onde cada pedra revela uma parte da história da Terra e cada caminho conduz às narrativas do Pampa.

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